Terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Este foi o romance que mais vendeu no Japão. É um facto. Mas não foi por isso que o li. Li-o porque a aparente simplicidade do livro me cativou... E porque, de repente, me revi naquele amor...

 

Com uma história que bem poderíamos classificar como comum e até a carecer de imaginação, este é um livro delicado e uma imensa lição de amor. É  um romance desses cujas páginas e palavras se devem saborear no mais apetecível silêncio, deixando-nos levar por um ritmo que nos acalma e nos transporta para uma cultura bem diferente da nossa. No entanto, o tema que o domina é universal e não conhece fronteiras: o amor. O amor eterno, diria. Aquele que transcende a idade ou a cultura... Esse amor que não se procura, que não se encontra por casualidade. O verdadeiro amor, o que nos encontra a nós, o que surge de um olhar...

Na sua aparente simplicidade, o texto esconde uma complexa "maquinaria" literária, onde todas as palavras e todas as histórias - mesmo as mais tolas - têm uma finalidade, num complexo e perfeito mecanismo de relojoaria narrativa. Até a natureza e o ambiente funcionam como personagem.

De facto, com uma linguagem simples e próxima de nós, leitores, numa escrita consistentemente bela, o autor empresta beleza a pensamentos complicados e duros. A nostalgia invade-nos, é uma verdade. Mas com um doce sorriso nos lábios...

Fiquei tão absorvida pelas personagens e pela filosofia que delas se desprende que terminei o livro sem chorar. Nem fazia falta...

A magia dos livros resisde nisto mesmo: em se perceber o seu conteúdo de diferentes maneiras...



publicado por I.M. às 20:08
Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Um dia, há muitos anos caiu-me no colo um livro leve e ligeiro. Vinha de uma pradaria de flores azuis e, talvez por isso,  cativou-me de imediato. Nunca mais esqueci aquela história, que seria levada, mais tarde, ao cinema.

Hoje ofereceram-me um dos presentes que mais aprecio: um marcador de livros. De repente, ao analisá-lo com calma, dei por mim a pensar naquela belíssima história...

 

A intriga, aparentemente, é banal: um fotógrafo, uma dona de casa, um calor do Verão de Iowa e uma  história de amor  breve e apaixonada (e apaixonante) nas pontes de Madison County.

O autor escreveu um romance fácil, sem grandes pretensões de estilo, com as descrições necessárias e um número de adjectivos que não ultrapassa os estritamente necessários. Mas para lá desta simplicidade aparente, o livro encerra uma essência muito própria, dando lugar a uma história de amor dirigida a todas as sensibilidades.

Confeso que não estamos perante uma obra prima. A obra não estava destinada a ser um clássico da literatura. O que me encanta é a paleta de cores (como no marcador) que variam numa escala quase infinita...

O que me atrai, é que esta história é um pretexto para se dar lugar a uma reflexão sobre o significado da felicidade ou a impossibilidade de a alcançar. Isto num mundo - o de hoje - onde se acredita que a felicidade não se constrói, encontra-se de forma gratuita...

No fundo, o livro tem como disjuntiva fundamental a renúncia ao amor e à felicidade (pelo menos à ideia de amor, à possibilidade de felicidade), ou a renúncia ao costume, à tranquilidade e à obrigação de uma vida feita através do casamento.

O amor pode ser, então, uma ideia. A felicidade sempre uma possibilidade...mas, talvez, também muito mais do que um desejo...



publicado por I.M. às 17:17
Terça-feira, 03 de Novembro de 2009

Por estes dias das "bruxas", onde as fronteiras deste mundo e do outro são praticamente inexistentes (lá diz a tradição celta), decidi ler um livro que se enquadra nesta temática "fantástica" (quase tétrica). Vi-me envolvida no mundo de fantasia de Tim Burton. Eduardo Mãos de TesouraCharlie e a Fábrica de Chocolate e mesmo A Noiva Cadáver foram fazendo eco à medida que a minha leitura avançava num universo paralelo, quase de quinta dimensão...

Deixo umas vagas impressões sobre um pequeno livro marcado pela égide da diferença. Em todos os sentidos...

 

A Mecânica do Coração é, sem dúvida, um livro diferente. Num mundo feito de sonhos, de fantasias, de sombras... o autor aborda o tema da diferença e da rejeição. Mas aborda também o tema da paixão e das suas destrutivas incompreensões, da dor experimentada por um coração triturado por um amor demasiado forte para ele. Do romance transborda uma atmosfera que nos desliga da realidade, mas sem nunca deixar de no-la lembrar...

A obra é um conto para as crianças grandes,que nós somos, sempre sensíveis a este género alegórico que, de uma certa forma, transcende as emoções.

Diferente, sem dúvida: um homem com coluna de metal, uma mulher que coleciona as suas lágrimas para se reconfortar quando as bebe, um ilusionista relojoeiro...Tão diferente como Alice no País das Maravilhas. Porque é ao mundo de Burton ou de Carrol que o universo do livro faz apelo... É um texto agradável de ler, para quem gosta do género, uma fantasia feérica sob o signo do amor. Acima de tudo, é um hino à diferença. Um hino que pede para ser lido e depois para ser partilhado.

Fiquei a pensar que, sem dúvida, um artista é sempre melhor quando está triste...

 



publicado por I.M. às 14:45
Domingo, 25 de Outubro de 2009

Saramago volta a estar na mira das atenções de todos. Por isso, decidi deixar aqui um comentário (breve e completamente impressionista, pois não tenho a presunção de que seja outra coisa) a um dos seus livros. Foi-me oferecido  há um ano por uns amigos que, como eu, partilham o gosto pela leitura. Já devia ter deixado as minhas impressões, mas o tempo foi passando, outros livros se foram impondo e o elefante Salomão  ficou, pacientemente, a aguardar o seu tempo...

 

Dizer o que se pensa não é tão fácil como parece à primeira vista. Muito mais quando se trata de um escritor polémico e controverso como José Saramago.

A Viagem do Elefante é um texto que combina factos reais com factos inventados. Por isso, pode parecer um romance histórico. Mas para mim não é, embora realidade e ficção  se entrelacem como uma unidade indissolúvel.

O livro está escrito quase em tom de fábula e talvez assim deva ser lido. Os dados históricos funcionam como um motivo para o arranque e, a partir daí, impõe-se a ficção. Ficamos perante uma reflexão sobre a humanidade, onde o humor e a ironia se unem à compaixão com que o autor observa as fraquezas humanas.

Salomão, o elefante, rapidamente se converte na imagem da inocência. É simples e humilde, é nobre e não se deixa levar pelas vaidades do mundo. Despreza o poder, nada o perturba e passa pela vida com o sossego que (supostamente) o cepticismo confere...

É deste modo - alegórico - que o autor apresenta a sua visão da condição humana.

À volta do elefante move-se uma sociedade assente na hipocrisia e no fingimento.

No entanto, a meu ver, esta viagem do elefante é, acima de tudo,  uma grande lição de estoicismo...

Por isso, não sei como classificar a obra.  Não sei se lhe chame conto, romance ou fábula. Não sei se lhe chame livro de viagens à maneira das crónicas renascentistas... Sei que o texto me parece uma alegoria da viagem da vida do ser humano, que decorre entre ambições, desejos, desconhecimentos...

Mas no fim, acabamos por chegar onde nos esperam...



publicado por I.M. às 11:46
Domingo, 18 de Outubro de 2009

Uma querida amiga recomendou-me este livro. Não há como não gostar de amigos que oferecem jóias assim...

 

 

As historias de amor são difíceis de pôr de lado. Esta é uma história de amor única e bela. Um amor que se ergue de um banco de um parque...Mas acima de tudo, é um diálogo  sem palavras entre dois homens - não só de duas culturas - que partilham a solidão e, ao fazê-lo, redescobrem a amizade.

Num estilo narrativo depurado, quase minimalista, conta-se a história do senhor Linh. E o leitor é conduzido a esse jogo. É a magia das palavras, é o poder de uma história sem mais conversas. Tudo passa pela emoção e pela pureza.

O senhor Linh, de personalidade luminosa, se bem que marcada e desamparada, é um homem de grande nobreza que nos envolve no seu silêncio e nos deixa sem voz...A sua história é a de muitos que são obrigados a deixar o seu país e a exilar-se em terras estranhas, onde encontram uma realidade totalmente diferente da sua. É a história do seu desenraizamento, da sua tristeza infinita, do seu desencorajamento, da sua solidão...

Uma escrita apurada e frequentemente poética fez-me pensar em Marguerite Duras - uma escrita onde o leitor, se quiser pôr a sua imaginação a funcionar, descobre, nas entrelinhas, todo um mundo de "não ditos" (ou melhor, de "não escritos").

Nesta fábula (porque não sei o que lhe chamar), o olhar do "outro", o desenraizamento, a dor causada pelo exílio forçado e a perca...tudo faz partir a alma em milhões de pedaços que só o fio cicatrizante da amizade sem fronteiras pode colar.

No seu estilo poético e mágico, esta é uma história que se lê tão facilmente quanto difícil é esquecê-la...



publicado por I.M. às 15:19
Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Algumas pessoas perguntam-me se não leio livros mais "leves". Nem sei bem como responder, pois acho que aqueles que leio não saõ "pesados". Gosto de boas narrativas e, sobretudo, bem escritas. Para agradar a gregos e troianos, deixo aqui impressões de um livrinho que li nas férias e que me parece se encaixa no perfil "leve" (se é que há um perfil para a designação)...Não é o meu género habitual, mas tem o seu valor.

 

Entrei na cozinha deste restaurante no final de uma tarde de calor e, curiosamente, dei comigo a tentar perceber oito pessoas que bem podiam cruzar-se com qualquer um de nós na vida real. Voltei à mesma cozinha e fui conhecendo, uma a uma, aquelas intrigantes figuras...

A autora estruturou o seu romance contando as histórias pessoais de cada personagem como se fossem uma séria de narrativas interligadas. Como se fossem um conjunto de contos com um tema central.

Por isso, o grande trunfo de Erica Bauermeister reside mesmo na capacidade de criar personagens de cortar a respiração no que à simplicidade e à voz diz respeito.

No entanto, cada personagem, com a sua história, vem acompanhada de um prato delicioso. Um prato que, de algum modo, estabelece (naquele momento) a ligação entre as personagens e as personagens e o leitor. Às vezes, essas histórias parecem ligadas e completas. Mas, às vezes, estão inacabadas...Às vezes entrelaçam-se com outras histórias ou separam-se - como azeite e água - mas cada uma é como mergulhar no diário íntimo de alguém que passamos a conhecer mais de perto.

A capacidade de imaginação e a  escrita descritiva são notáveis na autora. A história não se complica mais do que o necessário, nem parece haver abusos no pormenor. Efectivamente, trata-se de uma escrita leve e refrescante. Todavia, o pormenor não é descurado e o leitor vê como a água escorre pela folha da alface e como vai traçando o seu percurso. Sentir, cheirar e ouvir são sentidos que estão constantemente a ser mobilizados.

A linguagem, tão lírica quanto descritiva, mostra-se rica e evocativa. De tal modo que, de repente, as descrições da comida trazem aromas, cores, texturas e sabores que dão vida às refeições. Ao revelar o mistério passado de cada personagem, a autora oferece ao leitor um olhar sobre o perdão, a tristeza, a alegria e a auto-descoberta. E ela sabe que a comida é mais do que aquilo que pomos na boca. Pode ser um meio curativo enquanto alimenta almas e estimula memórias.

 

Nota: livro a servir bem fresco, de preferência num fim de tarde de um Verão  quente. Adicione-se brisa a gosto e aroma de jasmim ou rosas brancas.

 



publicado por I.M. às 09:52
Domingo, 04 de Outubro de 2009

Mais um livro que li em espanhol, pois não está traduzido em português. E é pena...

 

De vez em quando aparece um livro que é simples, mas eficaz, legível, mas memorável. Este é uma dessas delícias: subtil e elegante no sabor, todavia emocionalmente perfeito até ao fim.

Trata-se da história cativante de uma pequena comunidade de pessoas ligadas entre si pelo seu amor à literatura e pelo trauma da guerra. É um registo de cartas interactivas que nos ensinam várias lições. Entre elas, os diferentes resultados da Guerra nas diferentes sociedades. Dando conta de um período negro da História, o livro é um raio de sol revelando o poder dos livros como alimento nos tempos difíceis.

Assim, temos um romance epistolar que nos faz rir e chorar, muitas vezes ao mesmo tempo, cujas personagens espalham vida nas cartas e telegramas trocados ao longo de nove meses, logo após a Segunda Guerra Mundial.

De facto, as personagens são memoráveis e únicas. De tal modo, que me fizeram esquecer o seu estatuto ficcional e dei comigo a acreditar que eram meus amigos de longa data...

Através de Juliet, a protagonista, ficamos a conhecer toda uma série de outras personagens que têm histórias para contar: actos de bravura, amor e traição...Todas estas histórias, inevitavelmente, traçaram o rumo das suas vidas, para sempre alteradas pela Guerra. E esta é uma das maravilhas do livro: as diferentes personalidades são identificadas individualmente de forma nítida e unívoca.

A história, bem traçada através das cartas, é uma dessas histórias que nos vão apaixonando...

Há já muito tempo que não lia um romance tão elegante e encantador. Um romance inesquecível que tem tudo o que um bom livro deve ter. Além do mais, é um belo elogio aos livros e ao amor que devemos sentir por eles.



publicado por I.M. às 13:52
Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Eis mais um livro  dos vários que li durante as férias. Este fez-me ver que (como diz a personagem) há, de facto, dois tipos de pessoas: as que preferem estar tristes no meio das outras e as que preferem estar tristes sozinhas. Mas fez-me ver, acima de tudo,  que a voz  jamais se deve calar...

Ficam uma ideias desconexas, a lembrar a dificuldade de falar sobre o que li. De uma coisa tenho a certeza: é um livro dentro de um livro, a desenvolver a ideia de que os livros são como pombos-correio...

 

Era uma vez, não há muito tempo, que a habilidade para contar e ouvir histórias (as histórias dos nossos dias, as histórias de mitos ou religiões) estava restrita à transmissão directa de "boca a orelha". Depois, perdeu-se...

Mas a nossa (nova) habilidade para retirar as nossas histórias de uma página em branco não reduziu a nossa fome pela voz. E a prova está neste livro.

Neste romance é a voz de Leo que faz com que a história ganhe vida. Leo fala connosco. Leo tem voz.

Este é um livro sobre o perder e o recuperar. Um livro onde verdade e ficção são, às vezes, difíceis de distinguir. Mas não é aí que reside a questão...

Na negação da infelicidade está a criação da felicidade. A felicidade das mais inimagináveis ligações humanas...Graças à sua complexidade, este romance tem a simplicidade da pura emoção e é delicioso também por causa disso.

A prosa é pura poesia e a escrita da autora é um belo exemplo da literatura enquanto arte. Ainda não sei bem porquê, mas à medida que ia lendo, fui-me lembrando de Gabriel Garcia Márquez. Talvez fosse o sentido de "maravilha", juntamente com alguns elementos de fantasia que se vão misturando com a realidade numa espécie de realismo mágico. Não sei e não sei se alguma vez saberei...

As personagens são vívidas e memoráveis pela sua humanidade, a sua excentricidade e a sua força...E ganham vida nas páginas...Todas experienciam a mágoa e a perca, mas mesmo assim não se encontra entre elas uma voz de auto-comiseração.

À medida que a leitura avança, torna-se impossível não amar Leo... Tanto quanto ele ama Alma...

 



publicado por I.M. às 14:39

Ao fim de 2000 visitas, não posso deixar de agradecer a  todos quantos visitam este espaço. Espero que continuem a fazê-lo e  a encontrar aqui algumas sugestões agradáveis para as vossas leituras.

I.M



publicado por I.M. às 14:35
Quarta-feira, 09 de Setembro de 2009

As férias terminaram e volto a este espaço para partilhar mais algumas leituras.

Começo bem, tenho a certeza!

Quando me aconselharam este livro, fiquei curiosa. Não conhecia a autora, e o título deixou-me pensativa. Depois, bastou começar...

 

 

O romance é magnífico. Tudo o que escrever será sempre pouco e não traduzirá o que senti ao lê-lo. Há que ler para crer. Por isso, esta reflexão é muito breve e cheia de imprecisões.

A beleza de Elegia para um Americano reside, quanto a mim, na capacidade que a autora tem de revelar as fragilidades da mente humana.

Comecemos pelo princípio: do meu ponto de vista, no original o título é bem mais sugestivo, bem mais forte, traduzindo bem melhor o conteúdo - " Sorrows" nao são apenas as que se prendem à narração e à personagem, mas sobretudo as que se ligam às tristezas e aos desapontamentos com os quais todos, afinal, vivemos.

Trata-se de um livro profundo (embora não o pareça) e absorvente, pois a autora leva ao limite o que um romance pode fazer e o que um leitor pode absorver. Uma vez inseridos na história, a experiência faz-nos sentir ora desadequados ora brilhantes...e finalmente profundamente gratos...

O tom meditativo da obra é poesia no seu melhor. A linguagem tem ressonância e sentido. A cadência está, frequentemente, em contraste cortante com a movimentada Nova Yorque e os seus habitantes. Mas é na descrição da cidade natal de Erik, no Minnesota, que Hustvedt atinge o ponto alto. Esta cidade é um catalisador de memórias, onde não há presente (apenas passado). E, no livro, as memórias são tão vivas como o presente...

Neste cenário movimenta-se um complexo mundo de personagens, cada uma com o seu complexo mundo de existência.

Elegia para uma Americano explora, no fim de contas, a solidão e as histórias por contar...

Só sei que cheguei ao fim e dei comigo a sentir a  desconfortável sensação de saber o quanto iria sentir a falta do livro...



publicado por I.M. às 17:12
Em torno de livros e escritos. À volta de histórias e estórias...

Há os livros que antes de lidos
já estão lidos. Há os que se lêem
todos e ficam logo lidos todos.
E há os que nos regateiam a leitura
e a quem pedimos humildemente
que se deixem ler todos e não deixam
e vão largando uma parte de si
pelas gerações e jamais se deixam ler
de uma vez para sempre.


Vergílio Ferreira
Estou a ler...

Roberto Bolaño, 2666

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