Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Depois de ter lido a Neta do Senhor Linh, era impossível não ler outro livro do autor. Calhou ser este. Quanto a mim, uma obra prima magistralmente orquestrada... Recomendo vivamente.

 

Um estranho. Uma aldeia traumatizada pela Segunda Guerra. Um relatório de um crime... eis a intriga deste extraordinário romance que nos prende desde o primeiro momento e nos obriga a reflectir sobre as misérias e as fraquezas humanas (que começam e terminam no próprio protagonista).

Se um conto de fadas é o representante da dicotomia Bem/Mal, então - e só nesse sentido - podemos dizer que estamos perante um "conto de fadas" genuinamente adulto, que força o leitor a ser testemunha dos extremos do Bem e do Mal de que a Humanidade é capaz.

O romance não gira em torno do relatório (que é imposto à personagem), mas antes de um texto paralelo no qual Brodeck dá um sentido muito pessoal do mundo que o rodeia. Tal como a máquina em que escreve, também ele é um homem partido que não se consegue reparar a si próprio, pois faltam-lhe pedaços. Só tem memória(s)... E o relatório - que nunca lemos - deixa o seu espaço a essas lembranças, a sua própria alma sangrante que se vai tornando mais sincera à medida que passam as folhas da sua história...

Os contornos do tempo são ténues. O espaço, incerto...Por isso, o romance ganha rapidamente universalidade e torna-se num espelho de uma sociedade na qual vemos o "outro". O outro, o estranho; o outro, o amigo; o outro, o amor... E percebemos que a alteridade une e separa...

Do início (misterioso), ao final (subtil), o autor faz desfilar numerosas personagens, multiplica as rupturas narrativas, entrelaça as histórias, mas nunca se perde nem nos deixa perder. Assim nos aproximamos da dissecação da alma humana: a dor, a vida, a sobrevivência. 

Acho que a este espelho nos  devemos olhar, ser corajosos e aceitar o nosso reflexo, por mais que não gostemos do que vemos. A não ser que queiramos repetir a história desta aldeia, situada a nada ao lado de S., no nada do tempo.

Este livro lê-se e vive-se.



publicado por I.M. às 17:27
Estou a ler o livro, ainda não estou a meio. No entanto já percebi que o livro marca, e marca, quem o lê. É o segundo livro que leio deste autor. Obrigada a Philippe Claudel , à mulher e à filha, sem as quais não seria grande coisa (na opinião do autor) pelos livros que escreve.
Anónimo a 9 de Dezembro de 2009 às 09:36

Já acabei de ler o livro há algum tempo (sou a anónima do comentário1).
Mas que livro, é de ficar sem respiração.
Teresa a 28 de Dezembro de 2009 às 18:22

Em torno de livros e escritos. À volta de histórias e estórias...
Na Prateleira...
Shelfari: Book reviews on your book blog
Estou a ler...

Steven Saylor, Empire

pesquisar neste blog
 
links