Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Na série infinita de números naturais existem alguns especiais:os números primos, divisíveis apenas por si próprios ou por um.

 

 

Acabo de ler este romance, onde Mattia e Alice são assim - duas pessoas especiais que viajam ao ritmo de um compasso binário, mas destinados a não encontrar-se mais... São dois universos singulares, incapazes de se abrir ao mundo que os circunda, incapazes de comunicar... Duas histórias difíceis, duas infâncias comprometidas que os faz transportar - dentro e fora de si - sinais de um passado terrível...

O tom da história cresce à medida que a simplicidade das descrições iniciais dá lugar à profundidade do pensamento.  E a Solidão dos Números Primos cresce nas mãos do leitor, partindo em surdina para um final (in)esperado.

A historia, ao contrário do que possa parecer, não é banal. É muito realista. O pessimismo que lhe encontramos é, também ele, muito verdadeiro e muito actual: a adolescência mal resolvida e os seus abismos revelam-se aqui em toda a sua plenitude.


Quando terminei, dei comigo a pensar: "realmente, são como dois números primos encaixados no meio de outros, mas com qualquer coisa que os distingue... Conservam um mistério sedutor que cativa o nosso interesse do início ao fim". 

Cumpre-se a expressão matemática "números primos gémeos"...



publicado por I.M. às 19:05
Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Cada vida pode ser contada como um romance - diz Isabel Allende. Não duvido, pois a minha também poderia...

Costumo pensar que a VIDA vive (se é que a VIDA vive!) num constante Carnaval. Senão vejamos: damos uma volta e, mesmo ao virar da esquina, ela prega-nos uma partida. Às vezes irrito-me com estas brincadeiras. Curiosamente, quando isso acontece, o livro certo surge no meu caminho. Aconteceu com Paula e, mais recentemente, com Pó Branco.

Foi assim que conheci a Madalena. Uma força da Natureza num tempo onde as regras não davam liberdade à vontade...

A história conta-se através da sua correspondência, das suas criações de arte, da sua poesia. Mas conta-se, acima de tudo, através da sua imensa coragem disfarçada num conselho ou num sorriso franco. Um sorriso que abarcava o mundo...

O livro encontrou-me (graças à gentil oferta de uma colega, uma sobrinha da Madô - como era conhecida entre os amigos) e, sem querer, a Madalena começou a fazer parte daqueles que recordo pela sua capacidade de marcar a diferença num mundo de iguais...

Tal como Paula, Madalena - o Pó Branco como se definia - passou por mim e deixou um rasto profundo...

Há livros assim: também passam por mim e não me deixam esquecer de passar por eles.

Esses são os de sempre e para sempre...



publicado por I.M. às 20:28
Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

 

 

A minha avó era cega. Imaginem como foi,  para mim, conhecer Alienor. Toda a minha infância voltou a acontecer…

 

 

 

Ilustrado sem ilustrações, o livro inspira-se nas famosas tapeçarias do Museu Cluny  - “A Dama e o Unicórnio”.
Utilizando, de forma alternada, uma série de narradores, a autora conta uma história de um mundo no qual arte e sociedade andam a par com tensões de género, restrições de corporações e diferenças de classes.
De um modo geral, a tapeçaria é muito raramente preferência de topo de um admirador de arte. Esta obra vem mudar essa percepção, ao convidar o leitor a entrar num novo mundo de arte. Um convite que não conseguimos declinar, pois a autora insufla vida nos artistas e artesãos da Idade Média, tornando este tempo vívido e contemporâneo. Abre, assim, uma janela para a vida dos nobres, dos plebeus, desses artistas e desses artesãos usando a criação das artes como força unificadora.
Tal como um conto de fadas, o romance aponta para a eterna luta do Bem e do Mal. Mas mais do que isso, faz-nos perceber que as nossas vidas são tapeçarias de pequenos acontecimentos sensuais e tentadores, românticos e proibidos…E embora deles sejamos timoneiros, devemos viver cada um dentro de si mesmo, sem ver a obra completa…

 


publicado por I.M. às 19:26
Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Bastaram os primeiros acordes da rumba para  me fazer lembrar de um livro que li há já algum tempo. Foi-me oferecido por um grupo de amigos que ocupam um lugar muito especial no meu coração.

Imaginem só:

Uma casa com fantasmas, que aparece e desaparece um pouco por todo o lado, em Miami, nos anos 80...

Uma família perseguida durante gerações por um duende destrutivo- Martinico...

Uma jovem que conhece uma fada e o deus Pan...

Uma mulher com um dom incomum...

Imaginem, ainda:

O compositor cubano Ernesto Lecuona e a lendária cantora Rita Montaner...

Misturem tudo e deixem-se levar pelo som de um bolero quente. Um por cada capítulo, pois assim se dá o mote a um novo acontecimento.

Impregnado de sons, o livro deixa ecoar A Casa dos Espíritos de Isabel Allende. Comovente, musical, fantástico, rico... é, para além de tudo, uma verdadeira homenagem à música cubana...Que chega com aromas de gardénia e jasmim emoldurados pela brisa marítima...

 



publicado por I.M. às 16:14
Domingo, 25 de Janeiro de 2009

Hoje é Domingo e o vento dança nas folhas das árvores que escondem segredos. Segredos que o vento traz... Sei, porque estou sentada à janela.

Da minha janela vejo histórias a passar na rua. Cruzam-se umas com as outras e cumprimentam-se na esquina. De repente, forma-se um mar. De histórias...

Depois, timidamente, começam a espreitar estranhas personagens recortadas. Parece que reconheço, no meio de tantas e tantas, as doze princesas... Fico a pensar: " E se alguma delas se engana e volta a uma história que não é a sua?" Sorrio perante a ideia...

Ao longe ouço um som triste de um violino esquecido.

Afasto-me da janela. Devagar, agarro esse som e digo baixinho:

- Por favor, conta-me uma história...

 

I.M.

                                                                                                                                            



publicado por I.M. às 10:59
Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

Era uma vez um lugar onde as noites eram longas e a Morte contava a sua própria história...

Era uma vez uma rapariga que queria ler, um acordeonista, um jovem pugilista judeu (que escrevia belos contos para fugir ao horror da guerra) e alguns alemães fanáticos.

Ao fim de algum tempo, a rapariga começou a roubar livros e aoferecer palavras...

Com essas palavras escreveu-se esta história.

Não é um livro como os outros. Quando chegamos ao final não dizemos "é bom" ou "é mau". Ficamos simplesmente a pensar nele...indefinidamente.

Lírico (por vezes) e desconcertante (quase sempre), perpassa dele uma poesia que desperta em nós alegria, tristeza, revolta, conforto moral...

A originalidade começa no narrador: a Morte (sim, essa que um dia todos iremos conhecer), pois ninguém melhor do que ela para contar uma história na Alemanha nazi. Uma Morte que se revela compassiva (ironia das ironias) e muito observadora dos seres humanos.

A originalidade continua na particularidade da estrutura da obra, onde se antecipa continuamente o que mais à frente se relata e onde se interrompe a narração para observar outros assuntos.

Mas é do poder da palavra que o texto trata com a tal originalidade.

Não sabemos o poder que têm as palavras e o papel tão importante que desempenham nas nossas vidas. Este livro é uma porta aberta a uma realidade... Nele se fala de amor, de morte, de magia, de desejos, de sonhos, de guerra...da VIDA.

Esta é, verdadeiramente, a história de uma rapariga que tecia a vida com palavras...



publicado por I.M. às 15:20
Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

 

 

A Feiticeira de Florença mergulha-nos num mundo de maravilhas (quase no sentido medieval do termo) e, ao mesmo tempo, num mundo de figuras que deixaram traços na História: Medici, Machiaveli, Savonarola...

Em paret história, em parte lição de História, o livro introduz-nos no Império Mongol do Imperardor Akbar e vemo-nos rodeados de danças, histórias e lendas descritas com graciosidade e com arabescos intrincados.De repente, numa viragem desconcertante, damos por nós numa aldeia próxima de Florença, onde três adolescentes procuam raízes de mandrágora. Um deles é Niccolo Machiaveli...A partir daqui, História e lenda misturam-se uma vez mais no cenário da Itália Renascentista.Mas nunca deixamos de pensar em Qara Koz, a princesa Mongol esquecida, cuja beleza encantas todos os que a vêem...Uma glorificação da arte de contar histórias e do poder da mulher, A Feiticeira de Florença mistura personagens reais com personagens ficcionais. E é aqui que o autor dá o tom à sua obra: o real pode tornar-se arte e a arte pode tornar-se real...



publicado por I.M. às 19:48
Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

Entrei numa loja para te comprar um ramo de poemas, só tinham flores, disseram-me, mas eu não entendi a resposta, repeti que queria um ramo de poemas, voltaram a explicar-me que ali só vendiam flores, sugeriram-me vários tipos de flores, disseram-me os nomes, como sabes sou péssimo com os nomes das flores, apenas tenho memória para poemas, esforcei-me por fazer compreender esta minha particularidade, ninguém me entendia, à força de não me quererem vender poemas, impingiam-me flores, que cheiravam melhor, eram mais vivas, que as mulheres gostavam mais de flores, flores que eu não quero, definitivamente não quero, pois tenho-te a ti, ninguém dá flores às flores, o que eu quero mesmo é um ramo de poemas.

                                                                                                                                           Henrique Fialho

 

 



publicado por I.M. às 21:09
Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

Li, há uns tempos, um livro que me tocou particularmente. À primeira vista pareceu-me, até, demasiado simples para os meus gostos de leitura. Enganei-me. O título soa inócuo, mas basta pronunciar a palavra “Holocausto” para que o pijama ganhe um novo sentido…

O que me fascinou, mais do que a história que se conta, foi o modo de contar. A perspectiva sobre um assunto supostamente tão adulto é a do olhar de um rapazinho de nove anos, cuja inocência e ingenuidade cativam qualquer um.

Depois fascinou-me o facto deste ser um daqueles livros onde nada nos é dado à partida. Ou seja, à medida que a leitura avança, os acontecimentos e os dados vão-se revelando lentamente. E aí começa a aventura – cada página é uma descoberta que nos leva a um rumo… inesperado.

É fundamental começar a obra sem saber do que se trata e ir descodificando as pistas que Bruno – o pequeno narrador – nos vai deixando.

Aconselhável para todas as idades, o livro tem o mérito de demonstrar que é possível –de uma forma clássica, que julgávamos ultrapassada numa era de informação global – contar o Holocausto às crianças. Ou pelo menos aos pais, que encontram na inocência e na credulidade de Bruno o tom emotivo que a história desperta.

Talvez assim se contribua para que não haja mais “rapazes de pijama às riscas”…

 



publicado por I.M. às 10:56
Domingo, 18 de Janeiro de 2009

 Há histórias que não provêm de pradarias de flores azuis. Vêm de memórias recônditas, onde o pó de mil caminhos deixa traços leves e vagos. Impressões de um momento...

 

 

Veio do fim do tempo, onde ventos vermelhos se cruzam com aromas de jasmim e açucenas.

Chegou numa tarde de Outono, à hora em que o sol vai beijando as videiras das encostas em jeito de despedida. Videiras maduras, prontas. De braços erguidos a suplicar esse último beijo...

Sem passado nem futuro, vivia o presente. Sem tempo e sem espaço, construía desenraizadamente um lugar imaginário...

Absorto contemplou o mundo. Do alto da colina sobranceira ao mar, ficou a ver a tarde que desaparecia no embalo da brisa. Não ficou muito tempo. Apenas o lapso do momento em que criou, de mãos abertas, a estrela da noite...

Partiu.

Tão silenciosamente como chegara.

Da sua passagem restou a estrela. A estrela!

A magia da luz que trazia na mão fechada...

I.M.



publicado por I.M. às 14:19
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