Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Acabo agora mesmo de ler esta fascinante história que nos coloca no Império Otomano. Não resisti ao encantamento das folhas que chamavam por mim incessantemente... Como o canto dos pássaros de água de Karatavuk e Mehmetçik...

 

Nesta obra, o autor intercala uma bela narrativa sobre o dia-a-dia de uma pequena cidade da Anatólia, e dos seus intrigantes habitantes, com a biografia de Mustafa Kemal Ataturk (primeiro Presidente da República Turca).

De facto, trata-se de uma soberba ficção histórica com pinceladas de Tolstoi, sobre a qual muito pode ser dito... Mas não sei se isso é tão importante... Só sei que não consegui parar de ler as quase 700 páginas do livro.

O Império Otomano é o foco político da narrativa, contada em curtos e atraentes capítulos. Aí conhecemos um vasto conjunto colorido de personagens que tornam a vida da cidade pulsante e realista. Personagens bizarras, mágicas, misteriosas, belas, loucas...

Lado a lado andam o humor e a tragédia, ao som dos passarinhos de água saídos das mãos de Iskander, o Oleiro...

E os pássaros são tema recorrente na obra. Aliás, o título confere ao livro uma dimensão interessante, se retivermos as palavras deste Oleiro - O homem é um pássaro sem asas, e um pássaro é um homem sem mágoas. Aqui reside o elemento essencial do livro: o mal que o Homem faz ao seu semelhante, das mais variadas maneiras.

Querem um  conselho? Desliguem os telefones, façam um generoso bule de chá e sentem-se confortavelmente para experimentar uma boa leitura. Deixem-se levar, como eu,  pelos pássaros, esses seres livres das mágoas que só a humanidade pode ter...



publicado por I.M. às 18:52
Segunda-feira, 30 de Março de 2009

 

Vi o livro nos escaparates. Ganhou o “Man Booker Prize 2008”. Li algumas críticas, todas elas unânimes em considerá-lo como um grande romance, fiquei curiosa e resolvi lê-lo.
Ficou muito aquém das minhas expectativas. Não me trouxe nada de novo sobre a Índia e os indianos, as suas castas, os seus costumes, a corrupção … Qualquer pessoa sabe que a Índia não é aquilo que nos mostram os folhetos turísticos (nem a Índia nem outro qualquer país). Achei a história cansativa, repetitiva e altamente previsível. Até a ideia do desenvolvimento da narrativa - o chamar a atenção do primeiro-ministro chinês, que tem visita marcada para a Índia, de que aquilo que lhe vão mostrar não corresponde à realidade - considero pobre.
M.T.


publicado por I.M. às 18:45
Domingo, 29 de Março de 2009

Depois de ter lido Os Pilares da Terra, não voltei a olhar para uma catedral do modo como o fazia até então. A leitura mudou a minha perspectiva. Podem crer.

 

Nestes dois volumes, o grande mestre da narrativa e do suspense transporta-nos à Idade Média, a um fascinante mundo de reis, damas e cavaleiros, castelos e cidades fortificadas. Amor e morte entrecruzam-se neste magistral tapete, cujo centro é a construção de uma catedral gótica.

É um fascinante romance histórico que cativa desde o início e se recusa a deixar tornar-se esquecido.

A história conta-se numa linguagem refrescante, sem perder, contudo, os traços do diálogo medieval. Uma linguagem que envolve o leitor nas maquinações orquestradas ao longo do texto - financeiras, arquitecturais e espirituais...

Repleta de personagens - cada uma diferente da seguinte - que retratam a época, lá estão os servos, os frades, os carpinteiros, os merceneiros... mas também os déspotas, os fora da lei, os sádicos...Todos trazem à luz um cenário representativo do quotidiano realista da Inglaterra medieval.

Paralelamente a este quotidiano intrigante surge a história dentro da história: a construção da catedral com as suas políticas, as suas dificuldades e o seus sucessos.

Este é talvez um dos elementos mais agradáveis da obra. Ou seja,  a forma como o autor partilha o amor pelas catedrais e o conhecimento que tem da construção das mesmas, dando a conhecer o detalhe humano, quase sempre esquecido.

Um romance verdadeiramente inspirador e "humilde" que nos transporta a um tempo onde a religião ditava as regras e a perseverança e a submissão eram a chave para a sobrevivência.



publicado por I.M. às 19:26
Domingo, 22 de Março de 2009

Li este livro há já algum tempo. O título cativou-me de imediato, pois o sari pode ser visto como uma metáfora da vida da mulher na Índia. Leve, flutuante e feito de belos tecidos representa a expressão da graça, da modéstia e do exotismo. Porém, tendo em conta a forma como envolve a figura femina, pode ser restritivo, nunca permitindo à mulher ser exactamente aquilo que quer, mas antes obrigando-a a ser o que a sociedade exige. E é nestas desigualdades que a história começa...

A obra surpreende, pois consegue captar com simplicidade, e sem artifícios, os recantos do coração humano.

Giarando em torno de um simples empregado - Ramchand - de uma loja de saris, a história faz-nos descobrir a realidade poliédrica da Índia (e das desigualdades sociais), rica em personagens e complicada nas suas relações pessoais.

O coração do romance é o coração de Ramchand que, por um momento, acredita poder restabelecer a justiça confiando na bondade das pessoas. No entanto, o grande argumento é a descoberta do mal que, às vezes, quando se manifesta em toda a sua crueldade, tem o poder de nos paralisar e de destruir toda a esperança...

Plena de lirismo, a história retrata uma sociedade simultaneamente moderna e arcaica, onde convivem tradições ancestrais e uma abertura à modernidade ocidental que continua a encobrir as mesmas injustiças já existentes no passado.

A autora, inteligentemente, leva-nos por caminhos de ingenuidade, como um guia que apenas quer mostrar sem intervir. E acerta plenamente, ao percebermos a hipocrisia daqueles que pensam que mudando a forma mudam as pessoas...

É no meio deste mundo que descobrimos a grandeza de Ramchand, o simples vendedor de saris, capaz de se compadecer de uma mulher que sofre. Um homem que descobre que há leis não formuladas pelos homens, mas inscritas no interior de cada um. E isso é magistral no livro, pois pressupõe um hino à esperança e à bondade (autêntica)...

Muito cedo o leitor fica fascinado pela simplicidade do protagonista e partilha com ele as suas frustrações e os seus sentimentos.

A seu lado, deixa-se ir e percorre as ruas de Amritsar, aprendendo a ver para lá das aparências que a textura do sari esconde e deixa entrever...



publicado por I.M. às 19:22
Quinta-feira, 19 de Março de 2009

O reino das fadas não está tão longe como pensamos. Mesmo que não o queiramos admitir...

Os oito contos que compõem este livro provam que a Terra dos Duendes está mesmo ali. Ao viarar da esquina. Às vezes basta cruzar uma linha invisível e batemos de frente com princesas, caminhos secretos e mansões que nunca parecem ter o mesmo aspecto...

A acção destes contos decorre numa Inglaterra mágica, paralela à do nosso mundo. Cada história serve essencialmente para nos dar a conhecer essa Inglaterra cheia de magia e de seres surpreendentes, a sua sociedade e os diferentes tipos de feitiços do povo das fadas...

A prosa é rica e agradável. Não falta sentido de humor que convida a esboçar um sorriso perante as (várias)  curiosas situações apresentadas. Queiramos ou não, há uma sátira implícita que leva a reflectir sobre o papel dos aristocratas e das mulheres (entre outras coisas) na sociedade vitoriana...

É difícil eleger um conto. Todos são diferentes e apresentam um aspecto ou outro que lhes confere singularidade. Todos, no entanto, cativam a nossa atenção de uma forma poética, amável, terna, cheia de humor e revelando um olhar compreensivo relativamente aos defeitos humanos. Servem, essencialmente, para mostrar a relação das mulheres com a magia ou como o mundo mágico da Terra dos Duendes invade a nossa sociedade...

É um livro para saborear com paciência, lentamente, deixando que essa magia que se filtra do mundo das fadas toque ao de leve os nossos sonhos...



publicado por I.M. às 15:55
Domingo, 15 de Março de 2009

Não foi um livro muito comercial. Penso que muitos nem deram conta da sua existência. Talvez por isso valha a pena referi-lo...

 

A Herança do Vazio é um romance tragicómico, que se desenvolve entre dois continentes e três gerações. A história balança entre Nova Iorque e a Índia, pondo em contraste empregos e condições de vida dos emigrantes.

Esta dupla justaposição de lugar e tempo pode, à primeira vista, distrair o leitor da história. Mas é natural e inevitável, pois  é uma das características da escrita da autora.

As personages são tão "vivas", os locais são tão "vivos" que nos sentimos sempre dentro das suas vidas. Isto porque os espaços têm vida...

Contudo, é através das personagens que são filtrados os antagonismos e convulsões (choque de raças, classes, culturas e gerações) de um mundo maior...

Embora se centre no destino de alguns indivíduos sem grande poder, este extraordinário romance consegue explorar, com intimidade, quase todas as questões da actualidade internacional: globalização, multiculturalismo, desigualdade económica, fundamentalismo e a violência do terrorismo.

A obra oferece todos os prazeres da narrativa tradicional de uma forma fresca e numa voz fresca. Essa frescura não impede, no entanto,  que Dickens e Tolstoi se cruzem  nas esquinas do texto, nas descrições e na construção (humana) das personagens, como uma herança que não cai no vazio...



publicado por I.M. às 14:14
Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Descobri Ian McEwan através do Fardo do Amor. Fiquei rendida ao seu estilo. De tal modo, que li tudo o que é do autor. Hoje  pediram-me que falasse deste livro em particular ; por isso, aqui fica o que penso.

 

Não é preciso ler mais do que dois parágrafos de Expiação para perceber que estamos diante de uma grande obra. Uma obra que faz lembrar, no seu tom e no seu estilo, os grandes clássicos ingleses.

A densidade da prosa de Ian McEwan é capaz de encerrar todo o dramatismo da narração em alguns esboços das personagens e criar uma atmosfera sufocante, como só pode haver numa casa de campo inglesa do género das de Jane Austen.

A história cresce de intensidade à medida que se devoram as páginas, prendendo o leitor numa atmosfera que se suspeita trágica mas cujo desenvolvimento e desenlace surpreeendem...

Nesta bem conseguida intriga, nenhuma das personagens -e são muitas - está a mais. Todas se nos tornam familiares, enquanto cumprem a sua missão na fantástica engrenagem que se vai construindo com peças soltas e que não parecem ter nenhuma relação entre si.

A estrutura da obra, por seu lado, é incomum. O texto está escrito a partir de múltiplos pontos de vista, em três partes distintas, que levam o leitor de Inglaterra a França durante a Segunda Guerra Mundial. Mas esta estrutura mostra-se uma peça fundamental num romance que, tematicamente, explora a interpretação da verdade.

Visto por muitos como uma história de amor, parece-me muito mais um livro sobre a criação de uma história e as ténues fronteiras entre ficção e não ficção, memória e facto.

Se há coisa agradável, para mim, é encontrar um final que não atraiçoe o desenvolvimento inteligente que nos acompanhou em páginas cheias de paixão. E aqui encontrei-o.

Dei então comigo a pensar sobre as áreas cinzentas inerentes à vida...



publicado por I.M. às 14:56
Terça-feira, 10 de Março de 2009

Já aqui falei do rato Firmin. Estão lembrados?

 

 Bem vindos, agora, à história de Despereaux, um rato apaixonado por música, histórias e uma princesa chamada Ervilha. Um rato franzino de enormes orelhas e um coração sem tamanho. Um rato grande demais para o pequeno mundo onde vive...

Supostamente escrito para crianças e jovens, A Lenda de Despereaux não tem idade e dá lições de vida aos mais velhos. O romance está repleto de mensagens intemporais importantes sobre a necessidade de nos assumirmos como somos e sobre o poder da redenção.

A meio caminho entre o conto de fadas tradicional e a épica cavaleiresca medieval, a história é-nos contada por um narrador sem nome, mas cheio de humor e inteligência. Fala directamente com o leitor, coloca questões e adverte, apontando consequências para algumas acções. Manda, até, procurar no dicionário algumas palavras...

Reside aqui a grande criatividade da autora: o leitor quase esquece o seu estatuto enquanto tal e passa a ouvinte. Um ouvinte atento de uma história inesquecível.

No entanto, por detrás desta aparente simplicidade, vemos desenhar-se alguns temas bem adultos, como por exemplo o abandono parental... Mas as aventuras deste rato único mudam as vidas dos adultos e das crianças. E estas mudanças traduzem-se, mais uma vez, em outro tema bem adulto: a capacidade de perdoar...

Posso não saber o que fazem um rato, uma princesa e muita sopa juntos num conto. Mas sei que a magia ganha verdadeiramente forma nas páginas deste livro...



publicado por I.M. às 14:22
Sexta-feira, 06 de Março de 2009

Este livro encantou-me. Tal como Adriana, também eu cresci num mundo repleto de duendes e fadas e gnomos...ao ritmo da minha imaginação.

Sem tradução em Português, este é um livro metafórico que põe em evidência duas perspectivas e, consequentemente, duas realidades : a da infância e a da idade adulta. Duas realidades tangentes, mas separadas e hostis...Paraísos habitados e inabitados...

 

Trata-se de uma história narrada com a imaginação da infância, essa que nenhum de nós devia perder.

Adriana, a protagonista, cria um mundo de fantasia para sobreviver à vida real. Um mundo feito à medida dos contos que lê, tendo por cúmplice Anderson. Para Adri, as pessoas que vivem no mundo real são os Gigantes, que devem ser evitados pelos gnomos (dos quais faz parte)...

Tudo isto até conhecer Gravila, o menino do sotaque estranho,  e viver fora de tempo (ou no tempo exacto?) uma bela história de amor...Tão intensa quanto o pode ser aos dez anos...

No seu todo, a obra  - quente e triste - corresponde ao clássico esquema da narrativa iniciática: a transição da infância para a idade adulta. De um modo particularmente belo, o processo é explicado a partir de um tempo impreciso e distante, por uma narradora que considera que talvez a infância seja maior do que a vida...

De modo magistral, o livro combina as duas características mais evidentes do percurso literário da autora: o realismo e o imaginário.

Talvez por isso, Adriana fez-me lembrar Alice. Sim, a do País das Maravilhas! Como ela, escapa-se constantemente da realidade, atravessando o espelho da sua própria imaginação, para um mundo onde os unicórnios galopam e deixam as suas pegadas na neve...

A noite é mais do que mágica. Por isso, é o momento privilegiado. O momento da exploração e aventura. O momento em que a casa permite passar para o outro lado do espelho...

 



publicado por I.M. às 11:35
Terça-feira, 03 de Março de 2009

Li há uns meses este livro recomendado por uma amiga.

Ainda bem que tenho amigas que recomendam bons livros.
Ao longo da leitura, não sei se o queria acabar ou se estava com pena de o acabar.
É um livro “forte” e “duro”, mas ao mesmo tempo “doce” e humano.
Um quadro de uma família islandesa do início do século XX, que vive (ou melhor, sobrevive) na sua terra gelada. É, tipicamente, uma saga escandinava.
A vontade de vencer, crendo nas forças da natureza e no sobrenatural, levam este homem a lutar diariamente contra tudo e todos. São muitos os obstáculos que lhe aparecem, mas segue em frente...Umas vezes ultrapassando-os, outras contornando-os, luta continuamente. “Sempre fui da opinião, disse ele, que uma pessoa nunca deve desistir enquanto for viva, mesmo que nos tenham tirado tudo”.
Uma lição de vida, nesta vida que levamos.
M.T.
 


publicado por I.M. às 15:44
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