Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Lembrei-me deste livro porque é daqueles que se ama ou se odeia. Tal como a ópera. Insiro-me claramente no grupo dos que o amam. A  minha paixão pela Idade Média jamais me deixaria pensar de outro modo. Mas não foi por isso que o escolhi, confesso. A atravessar um momento menos bom na vida ( mais um) lembrei-me da esperança que encontrei nestas páginas. Como preciso de me agarrar a ela desesperadamente, decidi deixar aqui algumas pinceladas da minha leitura.

 

Rosa Montero consegue não só contar uma história de aventuras, que nos faz submergir na Idade Média, como consegue falar de ideais e transmitir uma mensagem sobre o poder das palavras para criar ou destruir.

Ao descrever com minúcia cada aspecto, por mais simples que seja, dá-nos uma sensação de "quotidianeidade" (se é que a palavra existe) que se confirma na (inicialmente) pouco atraente ideia de contar a história apenas na primeira pessoa e no presente. Porém, rapidamente descobrimos que isso contribui para que nos identifiquemos com a personagem principal, fazendo-nos sentir parte daqueles espaços, daqueles sentimentos, daquele tempos...

É-nos revelado um mundo onde se mistura, curiosamente, realismo e superstição. E brincando  com muitos duplos sentidos, confude-se - com inteligência - o real e o imaginário.

É possível alcançar a liberdade sendo escravo? É possível mudar o próprio destino?

Estas são algumas das perguntas que fazem parte integrante da mensagem da história. Uma história de superação pessoal, de valentia incondicional, de vivências inesquecíveis, de batalhas sangrentas, de desejadas recompensas...Mas, sobretudo, de esperança. Esperança perante as dificuldades, brilhando como uma luz na mais profunda escuridão do medo e da derrota.

A História do Rei Transparente  é, acima de tudo, uma insólita viagem a uma Idade Média desconhecida. Uma história que nos comove pela sua grandeza épica. Um encontro deslumbrante com personagens inesquecíveis. Uma fábula para adultos...

É, ao fim e ao cabo,  um desses livros que não se lêem, mas que se vivem!



publicado por I.M. às 14:38
Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Há qualquer coisa de inerentemente encantador relativamente a este livro!

 

Ler Os Sonhos de Einstein é como andar dentro de uma figura de Escher. É como descobrir que a nossa vida está realmente dentro de um dos livros da prateleira de cima da Biblioteca de Jorge Luís Borges...Estranhos sonhos...

Mas para começar no princípio - porque é por aí que se começa - Einstein teve vários sonhos que decorriam num mundo regulado por diferentes noções de tempo. Ao ler a obra, vemos como seria o mundo se o tempo andasse para trás, ou se ele se movesse em ondas ou em vórtice, ou se ele tomasse conta do espaço seguindo três direcções ao mesmo tempo, ou se ele andasse mais devagar ou mais depressa...

O texto levanta, então,  algumas questões interessantes sobre a natureza do tempo. Apesar de ser um conjunto de pequenos "contos", não é uma colectânea. Pelo contrário, tenta chegar a um sentido sobre como o tempo pode fluir em universos paralelos.

São 30 sonhos. Todos sobre o tempo. Cada um representa um mundo, ou  cada um representa várias facetas do nosso próprio?

Mais do que um ensaio é um poema. Se fosse uma pintura teria sido pintada por Magritte: belas, mas perturbantes imagens.

Em poucas páginas, o leitor é conduzido a esse mundo de sonhos, onde o tempo permite que o sonho se demore...



publicado por I.M. às 21:23
Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Descobri Joanne Harris há já algum tempo. Fiquei presa às suas histórias, mas sobretudo aos doces sabores que polvilham alguns dos seus livros. Este é um deles. Por isso, não resisti a tentar todos o que me visitam com um suave aroma a chocolate, acompanhado por um encantamento de baunilha...

 

O espaço é familiar. Já cá estivemos em Chocolate...Passaram cinco anos e Vianne e Anouk estão agora em Paris, onde possuem - calcule-se - uma chocolataria. De repente, tudo nos chega em eco. A nossa memória enche-se de aromas e encantamentos que nos arrebatam de uma realidade que não nos custa deixar...

A autora escreve uma fantasia de sentidos, com um original toque de poesia, polvilhada de chocolate. Fá-lo, partindo da perspectiva de três pessoas diferentes: Vianne, Anouk e Zozie. Pleno de estórias, o livro está efectivamente muito bem escrito.

Embora sendo a sequela de Chocolate, o espírito livre com poderes mágicos que é Vianne mantém-se igual a si próprio: sempre pronto a seguir o apelo do vento...

Trata-se de um conto de fadas adulto, escrito num estilo original, onde a cada canto nos cruzamos com encantamentos de especiarias como o cardamomo ou a baunilha, deliciosamente à nossa espera...

Sem se aperceber, o leitor é levado para um mundo mágico e atemporal que convive lado a lado com as tecnologias e as questões sócio-políticas do século XXI. O mundo lá de fora tem frias verdades psicológicas e o mundo da chocolataria, rodeado dos seus magníficos aromas, torna-se um refúgio.

Tal como os clientes são seduzidos para a chocolataria, o leitor é atraído para esta história de fazer crescer água na boca.

Dias depois de a ler, ainda podia senti-la. Garanto.



publicado por I.M. às 16:12
Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Ao acabar estas 700 páginas não pude deixar de lembrar-me de Nietsche que escreveu qualquer coisa como :

A memória diz:

- Fiz isto.

Mas de seguida intervém o orgulho e afirma:

- Não pode ser que eu tenha feito algo assim.

E no final a memória cede...

 

Estamos perante um grande romance, quer pelo modo como está escrito, quer pela precisão de termos e estilo cuidado do autor.

A história - narrada magistralmente - gira em torno da complexidade do ser humano e do poder da memória.

O autor introduz-nos nesse mundo de uma forma brilhante, pois submergir nas profundidades da memória tem muito de demanda pessoal, de conquista de território inóspito da própria identidade...

Na realidade, na obra entrecruzam-se duas histórias: uma que nos conta Julio, na primeira pessoa; a outra, a de Jules, narrada numa voz omnisciente.

A memória de Jules - um homem atormentado na linha de Dostoievsky - funciona como uma alegoria da importância da (re)construção do passado.

E, num ápice, vemo-nos na Segunda Guerra Mundial com nazis, resistentes e traidores... Mas acima de tudo, vemo-nos envolvidos numa poderosa e bela história de amor que ( já que há um último véu) a todo o custo importa desvendar...

Diria que o romance começa e termina como os grandes livros: deixando que quem os lê conheça um pouco melhor de si próprio...



publicado por I.M. às 15:22
Terça-feira, 14 de Abril de 2009

 

Também eu fui mau aluno, também eu sou professor.
“Estranho ofício” é como o autor classifica esta profissão.
Não vou aconselhar os colegas a lerem o livro. Eles já são crescidinhos para saberem o que devem ler. No entanto, gostava que alguns o lessem e, por mais incrível que possa parecer, a alguns dos mais “novitos” far-lhes-ia muito bem.
Não há receitas para se ser um bom professor (nem eu sei o que é ser “bom” professor).
O autor mostra, neste seu livro de reflexões sobre a arte de ensinar e a arte de aprender, exactamente isso: não há receitas. Mas mostra que tem de haver o tal “amor”, o gosto, a sensibilidade. Sem isto, há apenas o debitar de matérias que, no nosso caso, são 90 minutos, mais 90 minutos ….
Pobres dos alunos (muito bons, bons, assim-assim, cábulas, muito maus …) e pobres dos professores que ainda não repararam que este seu “estranho ofício” é uma arte. Uma arte nobre.
M.T.


publicado por I.M. às 14:39
Domingo, 12 de Abril de 2009

Numa época onde palavras como tolerância ou cidadania são quase palavras de ordem, onde cada vez mais o multiculturalismo é uma realidade, questiono-me muitas vezes sobre o sentido que esses conceitos têm, na verdade, para nós. Por isso, lembrei-me de um livro que li há já bastante tempo mas que me tocou profundamente. Acredito que a sua leitura não deixará ninguém indiferente...

 

A escrita é magnífica, na voz de uma criança do sul dos Estados Unidos. A história é fácil de ler e a intriga cativa e prende o leitor desde o primeiro minuto. Com todas estas características está garantida a qualidade de leitura da obra.

O que o leva a ser um clássico é a moralidade que dele se extrai e a habilidade para suscitar nos leitores de hoje - como nos de ontem - simpatia.

Poderoso, o livro aborda temáticas que ainda hoje encontramos na nossa sociedade dita moderna. Esse é  outro aspecto que faz dele uma obra prima. Questões delicadas como o racismo, a opressão, a injustiça ou o preconceito saltam das suas páginas . Espantosamente, a obra consegue gerir estas áreas sensíveis e profundas sem demagogias. Tal é conseguido porque Harper Lee faz de uma criança o narrador, permitindo-nos aprender com ela...

Por outro lado, a tal escrita brilhante facilita a entrada no mundo da era da Depressão no Alabama. E, curiosamente, torna-se fácil para nós  simpatizar com o local (apesar de todos os preconceitos da cidade) e até com muitas das personagens.

Por Favor Não Matem a Cotovia  desafia o leitor a reagir. E não lhe permite ficar indiferente. Para o melhor e para o pior... Porque esta é uma história sobre ver as pessoas como pessoas, tentando entendê-las.



publicado por I.M. às 21:43
Quinta-feira, 09 de Abril de 2009

Deixei vaguear o olhar pelas estantes da minha biblioteca e deparei-me com A Boda Mexicana. Lembrei-me imediatamente de Laura Esquível e Isabel Allende. Nem poderia ser de outro modo...

Como o livro está a ser reeditado, aqui fica uma reflexão impertinente e impressionista...

Tal como o título refere, a narrativa tem como centro uma das tradições mais antigas da humanidade: o casamento. Esperanza, a narradora e protagonista da obra, desafia a tradição na sua luta para alcançar uma vida melhor. Simultaneamente, recria um universo onde convivem valores e dilemas - as forças que unem e separam  as pessoas, os enigmas do coração, a angústia perante a passagem do tempo...ou seja, a totalidade da experiência humana.

Com um estilo realista e uma emotividade contida, a autora fala da condição da mulher no México (fazendo-nos atravessar do passado ao presente e do México rural ao urbano), dando às vozes femininas um profundo humanismo que faz do livro um relato de grande força.

Porém, acredito,  o fundamental da escrita de Sandra Sabanero reside na observação psicológica e na sua capacidade de representar diferentes problemáticas.

Assim, enquanto os preparativos do casamento decorrem, Esperanza deixa que a sua mente reviva pedaços de memórias, permitindo à autora analisar o papel da mulher e da família no imaginário colectivo da sociedade mexicana.

O livro é um exemplo do papel da mulher moderna na sua luta para  vencer sem esquecer o que é fundamental: o amor. E, neste caso, um amor sem barreiras nem culturas...

Quando as histórias de amor terminam com o casamento dos protagonistas, assume-se um final feliz. Deste ponto de vista, A Boda Mexicana não é excepção. Porque o amor é eterno enquanto dura...



publicado por I.M. às 16:59
Quinta-feira, 09 de Abril de 2009

 

Após a 1ª Guerra Mundial, o exército grego ocupa, durante três anos, a região da Anatólia.
Num registo cadenciado, sem altos e baixos, o autor descreve as relações entre os elementos de diferentes patentes de uma brigada grega que se perdeu no meio da guerra e é perseguida, ou pelo menos assim o pensam, pelo exército turco.
Todos eles, desde o brigadeiro ao padre, têm um fantasma comum: o massacre.
Quando parece ao leitor que a narração encravou, um aviador militar cai do céu. A história tem um segundo arranque.
A brigada chega a uma cidadezinha, e aí aparecem mais personagens: o Presidente da Câmara, o mestre-escola, a prostituta francesa, o merceeiro… Também estas são caracterizadas ao mais ínfimo pormenor, com uma simplicidade incrível. Tudo flui naturalmente.
Nesta cidade há ainda um esgoto a céu aberto, que separa a população muçulmana.
Há duas presenças constantes: o pó e o cão do padre.
Por fim, e como que por um passe de magia, aparece o mar. Esse mar que desde o início é a bóia salvadora. Será realmente a bóia salvadora? Para alguns veio tarde demais, e outros descobrem outras bóias.

É um livro metafórico que obriga o leitor a estar atento e reflectir.

M.T.



publicado por I.M. às 16:24
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