Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Ouvi dizer que esta escritora era uma Jane Austen do Séc. XXI. Como gosto imenso de Austen, comprei o livro. E li-o, claro. Quando acabei, fiquei sem saber o que dizer, pois nele se retratam temas e situações tão correntes quanto delicadas. Mas Jane Austen apenas se entrevê...

 

Arlington Park desenrola-se como um documentário, com o leitor a "intrometer-se" na vida das personagens. Através de observações afiadas, relativamente à vida suburbana em geral e à maternidade em particular, a autora estabelece o tom do seu romance. Deste modo, queiramos ou não, as mães identificam-se com, pelo menos, uma parte da vida de uma daquelas cinco mulheres (porque também elas já a viveram)...

A maternidade não é, no texto, um assunto pacífico e dele a autora tem uma visão particular. Ou, pelo menos, discutível...

O melhor do livro reside na bela precisão com a qual Cusk consegue descrever uma irritação secreta ou uma traição matrimonial.  Reside, então, na refinada inteligência da escrita de Rachel Cusk, com as suas exaustivas clarificações e metáforas elaboradas. Sem dúvida, estamos perante uma autêntica mestre do detalhe...

E é neste sentido que encontramos a forte influência de Virginia Wolf: na habilidade de fazer arte a partir dos detalhes de uma vida comum, corriqueira e nada extraordinária (o estacionar de um carro, uma loja de moda...).

Penso, contudo, que o texto teria sido mais impressionante se fosse um conjunto de contos - os retratos individuais são poderosos por si só, mas diluem-se na ligação que estabelecem uns com os outros.

Tocou-me, ainda, a questão do tempo. O tempo que é curto para pessoas ocupadas, mas que pode parecer infinito (e infindável) para mães de crianças pequenas...

Finalmente, parece-me que a imperceptível perda de si próprio - como consequência quer do casamento, quer da maternidade - é o grande tema da obra. Qualquer mulher, partindo da leitura do livro, olha para o espelho e, às vezes, questiona-se sobre o que é feito da jovem atraente que um dia foi. Questiona-se, também, sobre se a casa, o marido e os filhos são, de facto, uma troca justa considerando tudo o que se perde. A resposta parece ser um sim. Ainda que equívoco... Não seria de todo injusto considerar Cusk a poetisa da mágoa feminina.



publicado por I.M. às 14:16
Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Como já tinha referido num post anterior, li os livros da autora publicados em Portugal. Por isso, quando este saiu, não hesitei.

Nada aconteceu como eu esperava e vi-me enredada numa situação angustiante e tão real que podia bem passar-se mesmo ao meu lado. Mais uma vez, com o México como pano de fundo e a condição da mulher como tema implícito, Sandra Sabanero envolve-nos numa teia que pesa e dói. Por isso, deixo umas frases simples arrancadas ao meu sentir...

 

 

A história é uma forma de dominação política, social e sexual, contada de foma crua (e cruel).

É um romance pleno de suspense e drama, com o qual muitos se identificarão... A autora mistura, de forma muito criativa, a realidade dolorosa com os sonhos e mundos imaginários que as suas personagens desejam alcançar. À força do sofrimento, estas vão avançando na vida e crescem, formando o seu carácter. O desejo que as move de subir na vida tem um preço e rapidamente nos vemos no mundo do narcotráfico... Um mundo que arrepia pela sua crueldade e frieza.

E desta imagem da corrupção irrompe Camila. A mulher pobre, humilhada, sofrida, que um dia procurou um adivinho. A mulher que enfrenta, com uma coragem ímpar, aqueles que na verdade detêm o poder, acreditando - até ao fim - na mudança do seu país.



publicado por I.M. às 20:21
Terça-feira, 19 de Maio de 2009

 

Li este livro em Janeiro deste ano.
Achei-o curioso. Nunca pensei em escrever o que quer que fosse sobre ele, pois não queria partilhar com ninguém as sensações que me deixou.
No entanto, de há uns tempos para cá, não me “sai” da cabeça, nem do corpo.
É raro o dia em que não me lembre dele, apesar de já ter lido mais 15 livros. Assim, resolvi ceder ao meu egoísmo inicial e resolvi escrever algumas frases sobre ele.
FOME vem-me à cabeça e fico enregelada. Um frio que se agarra à pele, um frio solitário.
A narração é o jogo do “Rato e do Gato". A vida “endireita-se” um pouco, e logo o protagonista a põe “torta” - o gato apanha o rato, mas logo o deixa escapar.
Por amor aos outros, o protagonista passa fome... ou por masoquismo?
Para se testar? Determinar o limite da degradação física que ainda lhe permita ter ideias para escrever?
É um jogo entre as resistências física e intelectual e a morte.
No fim, o jogador abandona a mesa do jogo (ou terá ganho o jogo?), parte… Provavelmente, para outro jogo.
M.T.


publicado por I.M. às 20:12
Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Adoro chá. Sempre adorei. Por isso, não resisti a este pequeno grande livro que li com o aroma a cereja  proveniente da minha chávena de "Chá das Gueixas". Deixo umas impressões vagas. Tão vagas como esse perfume da minha chávena...

 

 

É um belo e poético romance que gira em torno da constante e imortal tradição japonesa  da Cerimónia do Chá e das (muito) inconstantes vidas mortais que a levam a cabo. Por outras palavras, é a história de um amor deslocado e perdido contada através da metáfora da cerimónia   japonesa do chá.

Lembrei-me imenso dos contos de Hemingway: um estilo minimalista, com muito mais impícito do que dito e muito deixado ao leitor para que o descubra a partir do não dito...

Cada palavra é pensada e cuidadosamente escolhida. Por isso, a experiência da leitura da obra é idêntica à que se vive quando se lê poesia.

Subtilmente, mas de forma poderosa, o livro levanta a questão das relações entre o passado e o presente, o tradicional e o moderno e o modo como se reconcilia a necessidade de ser moderno com  a atracção do passado.

A escrita é simples e elegante. Fiquei apaixonada pela forma como são descritos os objectos da cerimónia do chá (bules e taças). É como se retivessem memórias... Passam pelas pessoas (e entre as pessoas), sobrevivendo mais tempo do que todos os dramas que testemunham...

Fez-me lembrar que os objectos podem possuir magia e mistério...

Fez-me pensar que a escrita diz muito sobre o silêncio...



publicado por I.M. às 14:44
Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Para todos quantos têm perguntado, esclareço que El Contador de Historias existe em espanhol. Foi essa a versão que li. Que eu saiba, não está traduzido em Portugal. Lamentavelmente...



publicado por I.M. às 21:44
Domingo, 10 de Maio de 2009

Acabei de ler A Ninfa Inconstante e, na minha mente, não fui capaz de deixar de (re)ver o filme "Lolita". Perturbante, o texto incomoda tanto quanto hipnotiza..

 

Comecei a ler o livro como se entrasse num salão de baile e iniciasse uma dança...

A história é magistral. Falam os silêncios. As palavras evocam o que se cala: literatura e cinema. No romance cabe o mundo, a vida inteira com o seu cosmo e o seu caos, até que a música soe diferente...como um eco que se desprende de um bolero.

A obra encerra três histórias que, afinal, são uma só. Ainda que cada qual tenha a sua identidade própria, nenhuma poderia existir por si mesma.

A primeira  é a da linguagem: os jogos de palavras, os encontros e desencontros, as alusões à literatura e ao cinema ou ao som das canções, bem como as frases curtas, rápidas e certeiras, o diálogo vivo e as situações absurdas.

No que à construção diz respeito, tudo parece um puzzle onde nada faz sentido. No entanto, rapidamente o leitor é convidado a captar toda a dimensão da obra e tudo ganha o sentido que parecia não existir.

A segunda história é a de Havana, a cidade recordada, saudosa, sonhada... A descrição exacta, até ao detalhe, dos comércios, dos cafés, dos hotéis, dos clubes fazem dela mais do que um mero cenário.

A terceira história é a de Estela, a ninfa inconstante. Diria eu, a história de uma Lolita trágica e triste. Uma história de amor tecida de enganos, infidelidades e desamores.

Graças à memória e ao seu poder evocativo, esta é uma história perfeita porque presume da imperfeição sem o ser...

 



publicado por I.M. às 19:23
Sexta-feira, 08 de Maio de 2009

Hoje, ao falar com uma colega, este livro veio à baila. Tinha-a tocado bastante e ficámos ali um pouco a conversar.

Já o li há algum tempo e, como gosto de Nietzsche... Cá ficam as minhas impressões em pinceladas incertas.

 

"E se?... É deste jogo que parte a história. Neste caso, "E se?" é a consideração do que aconteceria se Breuer tratasse Nietzsche. As personagens são reais, fazendo deste um romance histórico - Razão pela qual o texto oferece ao leitor interessantes incursões na personalidade do filósofo...

Enquanto se desenvolvia a teoria psicanalítica relacionada com a histeria, a obra explora a sua relação com outra condição: o desespero existencial da civilização ocidental do século XIX.

Por isso, a fórmula básica do romance consiste em colocar em conjunto o futuro "doutor da histeria" com o futuro "doutor do desespero". Esta fórmula permite ao autor colocar uma série de interessantíssimas questões sobre a filosofia existencial, a psicanálise e o lugar da ciência na vida humana.

Outro ponto forte da obra reside no poder da descrição. Viena é descrita não só visualmente, mas também cultural, politica e cientificamente.

É um livro emocionante (e emocional) que traz à vida um dos maiores pensadores do século XIX. Assim, para quem não está familiarizado com a filosofia de Nietzsche, esta é uma boa introdução ficcional ao homem e ao seu pensamento.

Através de um romance histórico, o autor oferece-nos um thriller psicológico brilhante, no qual encontramos alguns temas que lhe são caros (como a libertação pela palavra ou o manipulador manipulado). Sem uma palavra da teoria psicanalítica, Yalom põe em cena todos os elementos clássicos de uma análise...

Comovente, Quando Nietzsche Chorou faz-nos interrogar e remete-nos para as nossa próprias fraquezas...



publicado por I.M. às 14:55
Sexta-feira, 01 de Maio de 2009

Depois de um tempo de ausência, volto para falar de mais livros. Quase sempre me perguntam o que penso de Laura Esquível. Pois bem, aqui fica o meu comentário. Descobri-a em Como Água para Chocolate e não voltei a perdê-la de vista.

 

Há romances impregnados de uma magia especial. Textos cheios de vivências de personagens do quotidiano que poderiam ser qualquer um de nós...

Há romances que não falam de grandes façanhas de cavalaria, de heróis inalcançáveis, de gnomos ou de espadas enfeitiçadas. Nem sequer falam de grandes conquistadores históricos. E, no entanto, de todos eles há um pouco em cada parágrafo.

São romances baseados no sentimento mais puro, aquele que pode desencadear o Amor...

Assim é Tão Veloz Como o Desejo. Um romance belo e quase musical na sua cadência. Romântico e apaixonante (ou apaixonado?). Júbilo, a personagem principal, é um homem marcado pela tradição e pela História Maia e cujo dom consiste em captar os sinais nos espíritos de todos quantos o rodeiam. Este homem (in)comum viverá apenas um grande amor na vida...

Mas esta não é só uma história de amor ou de pensamentos ou de sentimentos... Talvez se trate do amor em toda a sua extensão, ou do poder da utilidade das palavras. Porém, acima de tudo, trata-se da importância de saber dizer o que se sente no tempo certo. De facto, quantas vezes um silêncio pode destruir o que tão difícil foi de construir...

Ambientada no México, a obra dá conta da história do telégrafo, ao mesmo tempo que recria a paisagem da costa Maia.

Laura Esquível vai ao fundo da alma da sua personagem para nos contar esta deliciosa história, com uma linguagem fácil, directa e brilhante. Com isso, consegue levar o leitor a um mundo onde a vida, o amor e a palavra viajam Tão Veloz Como o Desejo...



publicado por I.M. às 21:02
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