Domingo, 25 de Outubro de 2009

Saramago volta a estar na mira das atenções de todos. Por isso, decidi deixar aqui um comentário (breve e completamente impressionista, pois não tenho a presunção de que seja outra coisa) a um dos seus livros. Foi-me oferecido  há um ano por uns amigos que, como eu, partilham o gosto pela leitura. Já devia ter deixado as minhas impressões, mas o tempo foi passando, outros livros se foram impondo e o elefante Salomão  ficou, pacientemente, a aguardar o seu tempo...

 

Dizer o que se pensa não é tão fácil como parece à primeira vista. Muito mais quando se trata de um escritor polémico e controverso como José Saramago.

A Viagem do Elefante é um texto que combina factos reais com factos inventados. Por isso, pode parecer um romance histórico. Mas para mim não é, embora realidade e ficção  se entrelacem como uma unidade indissolúvel.

O livro está escrito quase em tom de fábula e talvez assim deva ser lido. Os dados históricos funcionam como um motivo para o arranque e, a partir daí, impõe-se a ficção. Ficamos perante uma reflexão sobre a humanidade, onde o humor e a ironia se unem à compaixão com que o autor observa as fraquezas humanas.

Salomão, o elefante, rapidamente se converte na imagem da inocência. É simples e humilde, é nobre e não se deixa levar pelas vaidades do mundo. Despreza o poder, nada o perturba e passa pela vida com o sossego que (supostamente) o cepticismo confere...

É deste modo - alegórico - que o autor apresenta a sua visão da condição humana.

À volta do elefante move-se uma sociedade assente na hipocrisia e no fingimento.

No entanto, a meu ver, esta viagem do elefante é, acima de tudo,  uma grande lição de estoicismo...

Por isso, não sei como classificar a obra.  Não sei se lhe chame conto, romance ou fábula. Não sei se lhe chame livro de viagens à maneira das crónicas renascentistas... Sei que o texto me parece uma alegoria da viagem da vida do ser humano, que decorre entre ambições, desejos, desconhecimentos...

Mas no fim, acabamos por chegar onde nos esperam...



publicado por I.M. às 11:46
Domingo, 18 de Outubro de 2009

Uma querida amiga recomendou-me este livro. Não há como não gostar de amigos que oferecem jóias assim...

 

 

As historias de amor são difíceis de pôr de lado. Esta é uma história de amor única e bela. Um amor que se ergue de um banco de um parque...Mas acima de tudo, é um diálogo  sem palavras entre dois homens - não só de duas culturas - que partilham a solidão e, ao fazê-lo, redescobrem a amizade.

Num estilo narrativo depurado, quase minimalista, conta-se a história do senhor Linh. E o leitor é conduzido a esse jogo. É a magia das palavras, é o poder de uma história sem mais conversas. Tudo passa pela emoção e pela pureza.

O senhor Linh, de personalidade luminosa, se bem que marcada e desamparada, é um homem de grande nobreza que nos envolve no seu silêncio e nos deixa sem voz...A sua história é a de muitos que são obrigados a deixar o seu país e a exilar-se em terras estranhas, onde encontram uma realidade totalmente diferente da sua. É a história do seu desenraizamento, da sua tristeza infinita, do seu desencorajamento, da sua solidão...

Uma escrita apurada e frequentemente poética fez-me pensar em Marguerite Duras - uma escrita onde o leitor, se quiser pôr a sua imaginação a funcionar, descobre, nas entrelinhas, todo um mundo de "não ditos" (ou melhor, de "não escritos").

Nesta fábula (porque não sei o que lhe chamar), o olhar do "outro", o desenraizamento, a dor causada pelo exílio forçado e a perca...tudo faz partir a alma em milhões de pedaços que só o fio cicatrizante da amizade sem fronteiras pode colar.

No seu estilo poético e mágico, esta é uma história que se lê tão facilmente quanto difícil é esquecê-la...



publicado por I.M. às 15:19
Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Algumas pessoas perguntam-me se não leio livros mais "leves". Nem sei bem como responder, pois acho que aqueles que leio não saõ "pesados". Gosto de boas narrativas e, sobretudo, bem escritas. Para agradar a gregos e troianos, deixo aqui impressões de um livrinho que li nas férias e que me parece se encaixa no perfil "leve" (se é que há um perfil para a designação)...Não é o meu género habitual, mas tem o seu valor.

 

Entrei na cozinha deste restaurante no final de uma tarde de calor e, curiosamente, dei comigo a tentar perceber oito pessoas que bem podiam cruzar-se com qualquer um de nós na vida real. Voltei à mesma cozinha e fui conhecendo, uma a uma, aquelas intrigantes figuras...

A autora estruturou o seu romance contando as histórias pessoais de cada personagem como se fossem uma séria de narrativas interligadas. Como se fossem um conjunto de contos com um tema central.

Por isso, o grande trunfo de Erica Bauermeister reside mesmo na capacidade de criar personagens de cortar a respiração no que à simplicidade e à voz diz respeito.

No entanto, cada personagem, com a sua história, vem acompanhada de um prato delicioso. Um prato que, de algum modo, estabelece (naquele momento) a ligação entre as personagens e as personagens e o leitor. Às vezes, essas histórias parecem ligadas e completas. Mas, às vezes, estão inacabadas...Às vezes entrelaçam-se com outras histórias ou separam-se - como azeite e água - mas cada uma é como mergulhar no diário íntimo de alguém que passamos a conhecer mais de perto.

A capacidade de imaginação e a  escrita descritiva são notáveis na autora. A história não se complica mais do que o necessário, nem parece haver abusos no pormenor. Efectivamente, trata-se de uma escrita leve e refrescante. Todavia, o pormenor não é descurado e o leitor vê como a água escorre pela folha da alface e como vai traçando o seu percurso. Sentir, cheirar e ouvir são sentidos que estão constantemente a ser mobilizados.

A linguagem, tão lírica quanto descritiva, mostra-se rica e evocativa. De tal modo que, de repente, as descrições da comida trazem aromas, cores, texturas e sabores que dão vida às refeições. Ao revelar o mistério passado de cada personagem, a autora oferece ao leitor um olhar sobre o perdão, a tristeza, a alegria e a auto-descoberta. E ela sabe que a comida é mais do que aquilo que pomos na boca. Pode ser um meio curativo enquanto alimenta almas e estimula memórias.

 

Nota: livro a servir bem fresco, de preferência num fim de tarde de um Verão  quente. Adicione-se brisa a gosto e aroma de jasmim ou rosas brancas.

 



publicado por I.M. às 09:52
Domingo, 04 de Outubro de 2009

Mais um livro que li em espanhol, pois não está traduzido em português. E é pena...

 

De vez em quando aparece um livro que é simples, mas eficaz, legível, mas memorável. Este é uma dessas delícias: subtil e elegante no sabor, todavia emocionalmente perfeito até ao fim.

Trata-se da história cativante de uma pequena comunidade de pessoas ligadas entre si pelo seu amor à literatura e pelo trauma da guerra. É um registo de cartas interactivas que nos ensinam várias lições. Entre elas, os diferentes resultados da Guerra nas diferentes sociedades. Dando conta de um período negro da História, o livro é um raio de sol revelando o poder dos livros como alimento nos tempos difíceis.

Assim, temos um romance epistolar que nos faz rir e chorar, muitas vezes ao mesmo tempo, cujas personagens espalham vida nas cartas e telegramas trocados ao longo de nove meses, logo após a Segunda Guerra Mundial.

De facto, as personagens são memoráveis e únicas. De tal modo, que me fizeram esquecer o seu estatuto ficcional e dei comigo a acreditar que eram meus amigos de longa data...

Através de Juliet, a protagonista, ficamos a conhecer toda uma série de outras personagens que têm histórias para contar: actos de bravura, amor e traição...Todas estas histórias, inevitavelmente, traçaram o rumo das suas vidas, para sempre alteradas pela Guerra. E esta é uma das maravilhas do livro: as diferentes personalidades são identificadas individualmente de forma nítida e unívoca.

A história, bem traçada através das cartas, é uma dessas histórias que nos vão apaixonando...

Há já muito tempo que não lia um romance tão elegante e encantador. Um romance inesquecível que tem tudo o que um bom livro deve ter. Além do mais, é um belo elogio aos livros e ao amor que devemos sentir por eles.



publicado por I.M. às 13:52
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