Domingo, 24 de Janeiro de 2010

Só conhecia esta autora de nome e ligada à ficção científica. Como não sou grande amante do género, nunca tinha lido nada dela. Um destes dias, choquei com Lavínia. Lembrei-me, de imediato, de Eneias e Dido e... não foi preciso mais nada para o livro vir coladinho a mim. Em boa hora este feliz encontro se deu. Cá ficam umas impressões. Brevíssimas. Porque não há palavras para a poesia da prosa de Ursula Le Guin...

 

 

Esta é uma história que se faz grande nos detalhes e na descrição do Lácio que, de repente, fica perto de nós e torna-se verídico. Tão verídico...

Lavínia é uma personagem vinda directamente da Eneida de Virgílio e a quem a autora dotou de voz e personalidade que lhe tinham sido recusadas pelo poeta. Ela é pretexto para sermos conduzidos ao mundo semi selvagem da antiga Itália, quando Roma não era mais do que uma aldeia entre sete colinas.

Paradoxalmente, Lavínia está consciente da sua realidade, enquanto personagem de ficção, e da sua imortalidade literária. Deste modo, a autora brinca com os limites da própria ficção, diluindo subtilmente a linha entre realidade e fantasia, entre factos históricos e mitológicos, entre criação literária e homenagem poética.

Com uma prosa onde o lirismo e o sentimento se apoderam frequentemente da narração, este é um livro que faz com que nos percamos entre a magia que se desprende das suas linhas.

Lavínia pode ser literatura fantástica. Mas soa a real. Tão real...



publicado por I.M. às 16:01
Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

Há um ano atrás, comecei este espaço com "Era uma vez" e terminei com "Deixem que vos conte uma história". Lembram-se? É verdade, já passou um ano... A todos os visitantes deste cantinho, o meu muito obrigada pela vossa assiduidade e pelos comentários carinhosos que por aqui vão deixando.

Hoje a minha proposta vai num sentido um pouco diferente do que é habitual. Mas bem podia começar por "Era uma vez..."

 

 

Rosebud é uma palavra enigmática que ouvimos em "Citizen Kane". Mas é também uma recolha de detalhes inacessíveis a uma grande parte de nós, permitindo perceber realmente uma parcela da personalidade profunda de cada uma das personalidades escolhidas por Assouline. É um livro que nos fala de pequenos instantâneos fundamentais que revelam e desvendam, ao público, essas grandes figuras.

Com a ligeireza que só a distância consegue, Pierre Assouline utiliza a palavra Rosebud como uma metáfora: trata-se de um detalhe revelador  das falhas e segredos de cada um de nós... Entrar no labirinto subterrâneo das pessoas, correndo o risco de aí nos perdermos, eis a proposta que o biógrafo nos faz...

A força da convicção que se desprende destes "fragmentos de biografias" radica na capacidade do autor se identificar no "outro", restituindo-nos a voz dos seus "queridos fantasmas".

Rosebud é um livro habitado por uma paixão e uma curiosidade pouco comuns. Pode ser lido como uma reflexão sobre a biografia ou como uma ponte entre a biografia, a História, o romance, a pintura, o cinema, a fotografia...enfim, todas as formas de arte.

Da obsessão de detalhe nasce uma visão de conjunto. E assim, metemos pés ao caminho por estes itinerários de vida e seguimos cegamente o guia. Já agora, um excelente pintor sem pincel...



publicado por I.M. às 14:22
Segunda-feira, 04 de Janeiro de 2010

Gosto da Lisa See. Conheci-a com O Leque Secreto e li tudo o que dela está publicado em Portugal. Agora, chegou a vez deste último. E voltei a ficar rendida. A história é forte e envolvente. Os mundos cruzam-se e ficamos à espera de ver o que acontece a seguir...

Não me alongo em comentários. Deixo, como sempre, uma impressão.

 

Em Raparigas de Xangai, Lisa See leva-nos numa viagem vívida – tão trágica quanto cheia de esperança – desde Xangai dos anos 30 até à Chinatown de Los Angeles em meados do séc. XX.
Mais uma vez, os temas abordados são poderosos (mas familiares) – os laços entre irmãs, a viagem psicológica… Porém, neste livro, a autora toma liberdades enquanto contadora de histórias, recriando mundos perdidos que foram algum dia sonhados, evocados e ancorados em hábitos e objectos do quotidiano.
Esta saga caleidoscópica transita dos horrores bárbaros da ocupação japonesa para as humilhações sofridas pelos emigrantes chineses em Hollywood. Através dela, Lisa See sublinha a importância das antigas tradições. E é refrescante ver esta época histórica através dos olhos de duas mulheres que se afastam, sendo simultaneamente atraídas (forçadas ou não) pelos costumes que tentam ignorar…
Caracterizações ricas, forte sentido de tempo e espaço misturam-se com romance e suspense. A escrita, essa é suave como a seda dos vestidos de Pearl e May. De tal modo, que o fardo dos horrores descritos se torna mais leve para quem lê. E depois, o realismo ganha lugar acentuado e aprende-se. Como se fosse uma lição de História. Melhor dizendo, o livro lê-se como se víssemos um álbum de família, no qual a autora incluiu o maior número possível de fotografias conseguidas.


publicado por I.M. às 15:46
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