Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

Uma amiga falou-me deste livro. Ia começar a lê-lo. Um tempo depois perguntei-lhe o que tinha achado e, após um momento de ponderação, respondeu: "Interessante. Uma leitura interessante..."

Não poderíamos estar mais de acordo. Além de interessante, considero-a uma leitura perturbadora. Talvez o meu olhar seja (e é, até pelas circunstâncias) diferente do dela. Senti o peso do livro, em toda a sua dimensão, em cada recanto do meu corpo e do meu espírito. Talvez por isso, o meu comentário seja apenas um conjunto de inquietações... E é verdade. Ela morre no fim!

 

 

Onde começa a realidade? Onde reside a verdade? Que leitura intensa!

Com alguns mistérios nos deparamos enquanto leitores. Por exemplo, são verdadeiras as histórias do caderno, ou apenas expressam um desejo de que as coisas tivessem realmente sido assim? O caderno é um diário, uma confissão, ou o romance adiado de Clara?...

Este extraordinário livro mantém-nos em "suspense" entre o sorriso e as lágrimas até ao inesperado final, que revela os mistérios do coração de uma mulher onde a verdade é mentira e a mentira é verdade.

Em compasso binário, deparamo-nos com uma dança a dois: um mostra verdades veladas, enquanto o outro tem que as absorver sem admitir que as leu.

A autora salta, em efeito de espelho, entre um caderno escondido (ou bem à vista?) numa gaveta da cozinha e a reacção de um marido que o lê e descobre uma parte desconhecida da mulher com quem casou há muitos anos atrás...

E nós leitores, perante dois olhares tão diferentes, vemo-nos na ignorância. Tal como o marido, não sabemos se o que está escrito é verdade ou não.

A história flui facilmente nas malhas de uma linguagem simples mas poética. Todas as palavras são as correctas e não estão a mais, obrigando-nos a reflectir sobre a vida e a morte, o dito e o não dito. A densidade psicológica de que se revestem as personagens e o seu desenvolvimento na história são brilhantes. E depois, a autora explora as pequenas verdades sobre o casamento e as pessoas, os nossos medos irracionais, os ciúmes, a forma como, em casal, um não fala com o outro -  nem mesmo quando o tempo está a esgotar-se...

Enfim, um romance cativante e perturbador de alguém que parece conhecer todas as chaves da sensibilidade feminina.

 

 

 



publicado por I.M. às 12:32
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