Domingo, 07 de Março de 2010

Mais uma amiga, mais um livro. Andava há algum tempo para "preencher" estes "Espaços em Branco", mas havia sempre algo que me impedia. Um destes dias, uma amiga emprestou-mo e li-o num instante. Não que seja fácil (como eu pensava). Mas é "absorvente". Para além de ser bom, deixou-me a pensar. Gosto de livros assim, onde, mais uma vez, a densidade psicológica da personagem me (con)vence... De tal modo que não sei bem o que dizer e tenho lutado para deixar estas linhas.

 

 

 

O romance tem, aparentemente, uma história simples e linear: um homem, de 65 anos, está a perder a memória por ser portador da doença de Alzheimer. Mas bem vistas as coisas, o livro é muito mais do que isto e vai muito mais além. Fica próximo, pelo menos para mim, dos romances meditativos da Virginia Woolf...

Tudo começa no ar, a bordo de um avião, de onde vemos - pelos olhos da personagem - desfilar a sua vida em retalhos representados, por exemplo, naquilo que construiu. E é nestes momentos que nos surgem as ondas Woolfianas de reconhecimento parcial...

E começamos a conhecer Jake. Ao mesmo tempo que o fazemos, a sua vida entrelaça-se com uma cultura que se vai impondo - a cultura judaica. Talvez por isso, do meu ponto de vista, o livro acabe por ser menos sobre o apagar da vida de um homem e mais sobre a vulnerabilidade de uma cultura...

De facto, a obra apresenta uma narrativa corajosa, inteligente e difícil de ler, pois progressivamente o leitor  fica mais confuso quanto ao estado das percepções de Jake. Numa linguagem que troca as descrições líricas pela certeza narrativa, o poético nunca se perde. E entre verdades e dúvidas sobre a verdade, a inteligência da narração reside, também, nesta incapacidade com que o leitor se confronta de saber o que é realmente  verdade... Através de uma repetição de motivos (um vestido amarelo, uma cerejeira, umas cartas de amor...) entramos no mundo da deterioração da memória de Jake. Lembrei-me de George Eliot que dizia, a propósito dos limites necessários da empatia, qualquer coisa como : "se pudessemos entrar no sofrimento seria como ouvir a relva a crescer ou o bater do coração de um esquilo e morreríamos com aquele rugido que é o do outro lado do silêncio". Eu diria que, algures  na margem, fica o mundo de Alzheimer. O mundo de palavras sem palavras, com a alma por resgatar...



publicado por I.M. às 11:29
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