Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Foi um encontro casual. Mas feliz .

O livro foi-me oferecido por alguém que jamais me desapontaria. Por isso, li-o sem reservas... E assim aconteceu. Não houve lugar ao desapontamento. Não poderia haver.

Trata-se não só de uma bela  e inesquecível história, como de um ritual que nos introduz num fascinante - ainda que doloroso - mundo  que dificilmente imaginamos (e muito menos compreendemos).

A história desenrola-se em torno da intensa amizade entre duas mulheres, ligadas entre si por laços bem mais fortes do que os do amor. Duas mulheres que se movimentam na China rural do séc. XIX, um mundo de raparigas de pés enfaixados. Um mundo onde a educação e a escolaridade se encontravam limitadas à elite masculina. Um mundo que deixava vilumbrar o isolamento feminino, através das tabuinhas das janelas do andar de cima...

Este isolamento e  a proibição de aprendizagem da caligarfia masculina, desenvolvem nas mulheres uma forma de escrita secreta - o nu shu.

Porém mesmo esta linguagem, a única coisa que permite que floresça a amizade entre as duas protagonistas, é um código elaborado, um ritual entre muitos outros rituais...

Se a prosa translúcida da obra ganha brilho com a beleza da cultura chinesa da época, também nos faz arder de indignação perante as injustiças e as atrocidades.

Ao trazer à luz, com um olhar perfeitamente objectivo, o mundo secreto destas mulheres chinesas, a autora leva os leitores a um lugar simultaneamente longínquo (porque fora do tempo e do espaço) e familiar (porque a paisagem do amor e do arrependimento é habitada por todos  nós. Num ou noutro momento...).

Escrito com a objectividade de um historiador e a apixão de um romancista, este é um romance elegante e sedutor. Como a linguagem dos leques...



publicado por I.M. às 16:18
Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

Aproximámo-nos da mala. Estava atada com uma corda grossa de palha entrançada, em cruz. Desembaraçámo-la dos seus atilhos e abrimo-la em silêncio. Lá dentro, pilhas de livros revelaram-se à luz da nossa lanterna eléctrica; os grandes escritores ocidentais receberam-nos de braços abertos.

 

Balzac e a Costureirinha Chinesa

 

 

Ningém jamais saberia o que é o amor, se o poeta dele não tivesse falado - disse Marguerite Yourcenar.

 

A história que nos conta Dai Sijie prova que o amor é muito mais do que um artifício poético.

No contexto da "Revolução Cultural" de Mao Tse Tung, dois amigos são enviados para "re-educação" nas montanhas. Ao longo desta encantadora (ainda que dolorosa) história - que capta a magia da leitura e a maravilha do despertar do romantismo - vamos seguindo as duas personagens, num espaço onde a leitura de livros proibidos vai provocar uma revolução maior do que a do Estado. Uma revolução que os faz tomar consciência da sua individualidade, da sua capacidade de sentir e de se emocionar...

A descoberta de uma mala cheia de romances ocidentais traduzidos - interditos entre os interditos - muda a vida dos dois rapazes e de uma costureirinha chinesa - a mais bela de todas.

E então, deslumbrados, assistimos a uma iniciação no prazer da leitura (e do amor). Esta iniciação pela leitura e a abertura a mundos de cuja existência nem suspeitavam, faz com que os três jovens a vivam como se fossem os primeiros  a passar pela experiência.

O que fascina nesta obra é precisamente isso. Numa linguagem simples e límpida, somos levados a sentir a emoção da leitura do primeiro livro, fazendo-nos descobrir o poder das palavras que desfilam perante os nossos olhos.

O poder de um livro, qundo o lemos como se fossemos o primeiro e único leitor...

 

 



publicado por I.M. às 16:57
Domingo, 11 de Janeiro de 2009

 

Um bom tecido não serve só para aquecer. Um bom tecido pode ser uma obra de arte. Um bom tecido pode contar uma história...

Tal como um tecido fino, esta história balança entre a força e a delicadeza. É uma elegante história de uma rapariga à procura do sentido da sua vida, que lhe ensina a dor e, ao mesmo tempo, muito acerca da arte da tapeçaria no século XVI, na Pérsia.

Envolto em simplicidade, o livro mergulha o leitor num tempo onde a mulher apenas vale pela sua virtude. Onde nascer mulher se converte em maldição.

Tal como um tapete, a narrativa é rica em personagens e acontecimentos, em lugares e em aromas que se entrelaçam com técnicas de desenho de tapeçarias, trazendo até nós o realismo de Isfaham.

Por outro lado, sete histórias das Mil e Uma Noites entretecem-se com a narrativa principal - como fios de um tapete - ajudando a criar a impressão de uma cultura de longa herança...

A autora tece uma tapeçaria única, juntando cores, esquemas e desenhos inerentes à própria natureza humana. Nó a nó, este tapete vai revelando um desenho de contradições: perda e amor, egoísmo e traição, beleza e pureza, traição, perdão e redenção.

O leitor, esse, já rendido, deixa-se prender até ao último ponto pela prosa poética que os seus olhos não conseguem evitar.



publicado por I.M. às 15:12
Quarta-feira, 07 de Janeiro de 2009

Uma sugestão para os pequenos que vai apaixonar os crescidos.




Há livros pequenos, livros médios, livros grandes e livros tão grandes que não cabem em nenhum sítio. Assim são os da ilustradora Rebecca Dautremer.

 

O que significa amar, quando se tem 4 ou 5 anos? As múltiplas definições surgem em Apaixonados, um livro magnífico sobre as primeiras interrogações inquietantes dos mais pequenos

Trata-se um texto sobre a linguagem, a que as ilustrações dão vida. Representam crianças que parecem minúsculas ao lado de adultos alongados, como se quisessem mostrar que os pequenos ainda não têm a experiência necessária nesta matéria…

Mas cativante mesmo são as frases integradas nessas ilustrações, que dançam e volteiam em reviravoltas, seguindo o movimento das crianças num mundo desenhado à sua medida.

Ainda que vocacionadas para um público infantil, as obras da autora não se adaptam, estilísticamente, aos protótipos de “libros para crianças”. Esta é uma das características que fazem dela única e singular. Há livros que valem pela história e livros que valem pela ilustração. Este vale pelas duas coisas. Até os adultos o manuseiam com mais cuidado, com mais delicadeza. Porque ficam mesmo assim… Apaixonados.



publicado por I.M. às 23:07
Quarta-feira, 07 de Janeiro de 2009

Talvez esse som fosse a sua mais antiga recordação. Lembrava-se do primeiro Inverno na montanha e da música da água na Primavera. Fora há quanto tempo?

 
Estrela Errante


 



 
Num compasso binário, onde o Verão dá lugar ao Inverno e o Inverno dá lugar ao Verão, assiste-se – de modo circular – à demanda individual de duas mulheres que nos levam a um mundo onde a diversidade cultural e a diferença das tradições afectam irremediavelmente a vida.
Mais do que uma história de guerra, esta é a história de duas mulheres que se cruzam e nunca mais se esquecem (ainda que não tenham proferido uma palavra). Duas mulheres que sofrem por causa da guerra…
De uma actualidade notória, a obra retrata os grandes males que marcam o nosso tempo: os conflitos étnicos e religiosos, a miséria dos refugiados, da guerra e do destino dos indivíduos.
Curiosamente, o espaço do texto não se deixa dominar pela melancolia, pela tristeza e pela infelicidade. A beleza das sensações, das paisagens e o novo olhar que se poisa sobre o mundo deixam-nos maravilhados. Como se tudo víssemos pela primeira vez…
Simultaneamente uma crónica dolorosa e um romance (no sentido épico do termo), o livro é, na verdade, uma lição de humildade e de inteligência.
Enquanto as crianças continuarem a ser prisioneiras da guerra, enquanto a ideia de violência não for rejeitada, estas duas mulheres – Esther e Nejma – permanecerão estrelas errantes…

 



publicado por I.M. às 23:02
Quarta-feira, 07 de Janeiro de 2009

Escuchad. Dejad que os guie en un viaje hacia los confines de la imaginación. Dejad que os cuente una historia...

El Contador de Historias

 

 

Era uma vez uma menina que costumava importunar os adultos com perguntas difíceis. A única maneira de a calar era contar-lhe um conto.  Quando descobri Aladino e todos os outros apaixonei-me para sempre.

Por isso, quando um dia – vindo no seu próprio tapete mágico – este livro me caiu no colo, voltei a sentir-me aquela menina que só se calava quando lhe contavam um conto. Segui deuses e génios, príncipes e escravas e nem dei conta das 660 páginas que compõem este grandioso romance. E a história da família de Alameddine tornou-se tão fascinante como a história de Fátima, a escrava do sultão...

Há muito, muito tempo, no Líbano, antes de haver televisão, havia contadores de histórias. Tinham o musical nome de hakawati e ofereciam os seus contos em troca de uma moedas.

O escritor libanês Rabih Alameddine empenhou-se em manter viva a memória desses malabaristas das palavras e, no seu mais recente livro El Contador de Historias (The Hakawati, no original), tece um verdadeiro tapete voador, onde se cruzam o tempo e a geografia: lendas de Homero e Ovídio, histórias da Bíblia e do Corão, contos das Mil e Uma Noites e do Panchatranta vão serpenteando pela história da família do autor contada num quarto de hospital. Guerras, amores e dasamores, tristezas e alegrias desfilam por entre diabinhos coloridos, príncipes e sultões, palácios e exóticos lugares.

Sem querer Alameddine torna-se, ele próprio (como o seu avô), num hakawati que nos deleita com 1001 histórias, numa só história contada sob o céu de Beirute. Este contador de histórias passeia, volta atrás e move-se no tempo, consistindo o seu talento em fazer com que cada uma das histórias seja tão pícara e  ao mesmo tempo tão real e contemporânea como a seguinte...Porque há histórias dentro de histórias dentro de histórias...

E nós, ávidos leitores, sentimos cada vez mais vontade de lhe pedir: “Conta -me um conto e enfeitiça-me...”

Preparem-se, por isso, para voar num fantástico tapete mágico em Mil e Uma Noites do Século XXI. Escutem...



publicado por I.M. às 22:56
Em torno de livros e escritos. À volta de histórias e estórias...
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